terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Barcos de Pesca


Diz um antigo e bem humorado ditado que há dois dias felizes na vida do dono de um barco:

"o dia em que o compra e o dia em que o vende".

É assim na maior parte dos casos em que decisões pouco ponderadas se transformam rapidamente em fortes dores de cabeça, mas não tem forçosamente que ser assim sempre. Há meia dúzia de questões simples a analisar quando nos propomos a adquirir um barco para pesca, para lazer ou para ambos.
  1. Para que quero um barco ?

  2. Que tipo de utilização vou dar ao barco ?

  3. Qual a frequência com que vou utilizar o barco ?

  4. Onde vou navegar com o meu barco ?

  5. Quantas pessoas normalmente me irão acompanhar ?
  6. Quanto custa o barco que pretendo adquirir?

  7. Quanto custam todos os extras necessários à actividade a desenvolver com o barco ?

  8. Quanto custa anual ou mensalmente manter o barco que pretendo adquirir?

Vamos analisar calma e ponderadamente cada uma destas questões e no final tomar a decisão consciente de adquirir ou não o barco.

Com um barco podem desenvolver-se diversos tipos de actividades lúdicas tais como por exemplo a pesca, o mergulho, o lazer, e o ski aquático. E será que existem barcos polivalentes aptos a todas estas actividades? Claro que sim, mas não serão especializados e vocacionados em especifico para nenhuma delas, requerendo á posteriori muitos investimentos em acessórios que o adaptam a cada uma das actividades especificas.

Deixando de lado actividades mais especificas vamos optar por um barco que em primeiro lugar seja para a pesca e em segundo plano para umas horas de lazer com a família e amigos em boas condições de segurança. Teremos então três grandes opções:

  • Abertos e com ou sem Consola Central,
  • Semi Cabinados ou Cabinados Walkaround
  • Cabinados

Fisher 550





Semi Cabinado 630



Cabinado 630


O primeiro modelo é um típico "day boat" com amplo espaço para pesca e lazer, com espaços para arrumação de material mas sem qualquer cabine fechada. Muitos modelos de muitos fabricantes já trazem acessórios específicos para a pesca como porta canas, tanques de isco vivo, suportes laterais para estiva de canas etc.

O segundo modelo sendo também um "day boat", já possui um compartimento ou cabine fechada á proa, que para além de permitir a arrumação de todo o material de pesca deixando-o a bordo, permite ainda uma área de descanso e refeições resguardada. Estes modelos geralmente possuem duas camas em V invertido com uma mesa rebativel ao meio. Tem como desvantagem o ser muito difícil pescar na proa da embarcação, limitando portanto o espaço útil a utilizadores em acção de pesca

O terceiro modelo, exactamente com o mesmo comprimento e boca do segundo, para além de possuir a mesma cabine de proa, tem ainda a vantagem de ser equipado com uma cabine guarda patrão que permite navegar ao abrigo das intempéries com todo o conforto. Este modelo tal como muitos outros, preveligia um amplo e desimpedido poço com vários compartimentos de arrumação e de isco no porão bem como suportes integrados nas amuras para canas de pesca

Qualquer destes modelos, o mais pequeno com 5.5 metros e o maior com 6.3 metros, pode ser matriculado nas classes V ou IV que abordarei noutro artigo.

Segue-se a questão da motorização da embarcação. Primeiro Diesel ou Gasolina? Segundo Inboard ou Outbord? Vamos analisar. Os Diesel são mais económicos, têm menos manutenção, mas são incomparavelmente mais lentos. Vamos navegar todos ou quase todos os dias? Vamos percorrer muitas milhas nas nossas jornadas de pesca e a velocidade e o tempo de percurso não são importantes? Então vamos optar por um Inboard a Diesel. Se por outro lado as nossas saídas são mais esporádicas, interessa-nos aproveitar o tempo ao máximo e chegar aos locais de pesca o mais depressa possível, então optaremos por um ou dois (mais segurança) Outboard a gasolina. Os modernos 4 tempos operaram maravilhas na fiabilidade, nos consumos e no ruído de funcionamento.



Motor Fora de Borda a Gasolina




Motor Interno para propulsão por Linha de Veios




Motor Interno com sistema de propulsão Z-DRIVE


A questão "Onde vou navegar com o meu Barco" prende-se essencialmente com as dimensões, o tipo de casco e a motorização do barco.

Se queremos dar-lhe uma utilização em navegação em rios ou junto à costa, digamos que até uma 3 milhas, qualquer barco a partir dos 4.00 metros nos fará o serviço bem feito. Se pelo contrário o que pretendemos é navegar para as 10, 12, 20 ou mesmo 25 milhas da costa, então já teremos que pensar num barco com comprimento entre os 6.00 e os 8.60 metros. Acima deste valor fica ao gosto e à disponibilidade financeira de cada um.



Embarcação simples com 4.20 metros de comprimento



Embarcação de Consola Central com 7.00 metros de comprimento



Embarcação Cabinada com 8.60 metros de comprimento

Cada tipo de barco em função das suas dimensões e potência máxima estipulada pelo fabricante tem uma Lotação máxima, que nas dimensões a que aqui nos temos referido, varia entre as 4 e as 9 pessoas. Há que ter em conta este factor na hora da escolha e em função do que pretendemos.

O custo do barco. É aqui que começa a investigação a sério, pois existem dezenas de Marcas e centenas de Modelos. Um barco poderá ir dos 10.000 euros para um 4.00 metros com uma motorização de 25 HP até mais de 150.000 euros para Cabinado de 8.60 metros com 200 HP. Tenha sempre presente que um barco é um péssimo investimento financeiro. No dia em que o coloca na água pela 1ª vez, perde logo no mínimo 30% do seu valor de aquisição. Isto não é linear porque existem Marcas mais reputadas que outras, e consequentemente com maior procura no Mercado de Usados. A compra de um barco não é um acto de Razão, mas sim um impulso de Paixão. Faça uma boa prospecção do mercado de oferta, aconselhe-se de preferência com um especialista que não esteja vinculado a qualquer marca e não se deixe influenciar pelos muitos "gadgets" oferecidos porque a maior parte deles nunca vai necessitar.

O Mercado de Usados também é uma boa opção a considerar, pois muitos proprietários que adquiriram os seus barcos sem pensar, desejam ardentemente ver-se livres deles e dos encargos subjacentes o mais depressa possível. Encontram-se muitas embarcações praticamente novas e a preços excelentes.

Depois de analisar todas estas questões, vamos ver o que um barco ainda precisa para navegar e pescar.

Primeiro a palamenta obrigatória. Muitas marcas englobam-na no preço final da embarcação, mas outras não. A cada tipo de Registo ou Classe de embarcação a Lei obriga a que possuam um infindável número de artefactos que visam a segurança da embarcação e dos seus ocupantes. Buzinas, Espelhos de Sinalização, Navalhas, Lanternas com lâmpada e pilhas suplementares, Bóias com e sem Retenida e Luz, Coletes, Balsa ou Barco de Apoio, Bombas de Esgoto, Rádio VHF com DSC. Se negociar um barco novo, faça finca pé na oferta da Palamenta obrigatória para a classe em que vai registar a embarcação, e que esta lhe seja entregue com os registos e vistorias necessárias já efectuados. Quase todos cedem a esta pretensão.







Depois há que equipar o barco para navegar e pescar. Aqui a aquisição de um GPS com Chartplotter, uma Sonda e um Radar são indispensáveis nalguns tipos de embarcação. Consulte o mercado em função da necessidade pessoal e faça um orçamento.






Finalmente os custo de manutenção do barco. Aqui devemos englobar todos os itens como estadia em Marina, Cartões Magnéticos de acesso aos cais, Revisões dos Motores, Pinturas de Fundo (2 vezes ao ano), substituição e zincos e ânodos, e os respectivos valores de grua para retirar e colocar o barco na água, Seguro, Imposto sobre Veículos, Taxa de Farolagem. Como simples exemplo posso dizer que um barco de 7.00 metros, estacionado numa Doca de Recreio do Porto de Lisboa, tem um custo anual de manutenção (valores para 2007) na ordem dos 2.700 euros por ano dos quais 1.820 euros são para a estadia na Marina

Tem sempre a opção de utilizar um atrelado para transportar o seu barco não o estacionando na Marina, mas aí as chatices são tantas, a falta de rampas em boas condições de utilização, o tempo de espera aos fins de semana no Verão, o local para guardar o barco, que vai acabar ou por não andar no barco tantas vezes como quereria, ou por se chatear dele em definitivo.



Reboque para barco de 440 até 1.2400 quilos





Reboque de Duplo Rodado para Barcos entre 1.200 e 2.800 Quilos


Não abordei aqui os semi-rígidos porque pessoalmente penso que não são barcos destinados á pesca desportiva ou lúdica. É obvio que poderão ser utilizados nesta actividade, que são barcos rápidos e extremamente seguros a navegar, mas para mim anzóis, facas e bicheiros lado a lado com câmaras de ar não fazem muito sentido, para além de terem as bordas baixas. Haverá quem discorde, mas esta é a minha opinião.

Navegue sempre em segurança e respeite o Mar porque este é belo mas também imprevisível e não perdoa erros grosseiros a ninguém. Divirta-se e não corra riscos desnecessários.

Comecei com um ditado, termino com outro em tom de brincadeira:

"Os melhores barcos do Mundo são os dos amigos"